segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Orkut e ciúme



O Orkut não passa de um site de relacionamento para diversão e entretenimento, certo? Errado! Conhecer novas pessoas e manter contato com conhecidos de longa data pode não ser algo muito bom quando isso atrapalha as relações afetivas.Recados com apelidos carinhosos, nomes íntimos, depoimentos que são quase uma declaração de amor, recebidos por quem tem namorado (a), causam muito ciúme. Isso leva a intensas discussões no relacionamento, exclusão da conta do Orkut ou, até mesmo, ao término da relação.

É fácil encontrar no site comunidades que exemplifiquem esse comportamento. “Orkut me dá crise de ciúme” e “Quem é essa vaca na página dele?” costumam estar na lista de quem tem ciúme dos recados e depoimentos. Um tópico de discussão em uma dessas comunidades é “Qual tipo de vaca você mais odeia?”. Nele as mulheres que deixam recados suspeitos no Orkut de homens comprometidos são classificadas como vacas sonsas, oferecidas, falsas, piranhas ou amigas.

Em outra comunidade há perguntas como “Já te deu vontade de excluir sua conta do orkut?” e “Você tem a senha do orkut do seu (sua) namorado (a)?”. Nessa última há 32 respostas, todas elas positivas. Alguns dizem que têm, mas não entram.

A estudante Fernanda Oliveira (nome fictício), de 17 anos, não apenas tinha a senha, como também acessava o perfil do namorado e excluía as “vacas”. Ela conta que, antes de obrigá-lo a lhe passar a senha, ficava o dia inteiro conectada para ler os recados dele antes que ele os apagasse. “Recadinhos falando ‘amor’, ‘meu bem’, nome carinhoso. Aquilo me irritava demais, me tirava do sério”, relata. Em função disso as brigas eram constantes. “Eu xingava , ficava até dois dias sem falar com ele”, relembra. “Para mim, aquilo era inaceitável. Meninas folgadas, abusadas”. O que mais a irritava eram os apelidos, “os nomezinhos carinhosos”.

Isso não acontece apenas com Fernanda. Bruna Franco, 18, diz que discutia muito com o namorado por causa do Orkut. “Era briga atrás de briga. A gente não tinha paz”, conta a estudante. “Excluí o meu Orkut pra evitar briga”. Pouco tempo depois os dois reabriram suas contas e as brigas recomeçaram. Ela admite que uma das principais causas de ter terminado o namoro foi o ciúme do Orkut.

Fernanda também excluiu sua página. Ela e o namorado resolveram cancelar a conta para cessarem as brigas. Com isso, o namoro ficou mais tranqüilo, sem crise de ciúmes. Mas assim que terminou o relacionamento, refez a conta. Os dois acabaram voltando e as discussões recomeçaram. “Aquilo estava me atrapalhando, me fazendo sofrer demais. Eu chorava, perdia o controle. Estava fazendo tratamento no psicólogo por causa disso”, relata.

Meses depois eles romperam definitivamente. “Uma das coisas que fez a gente terminar de vez foi o Orkut, porque aquilo fazia mal para mim e não pra ele. Para ele era um divertimento, aumentava o ego, o orgulho”, explica.

Maria Luiza (nome fictício), 24, também já teve problemas com ciúme no Orkut. Ela revela que sempre que via recado de mulheres no Orkut do namorado se sentia incomodada. “Adorei ontem”, “saudade”, “vamos combinar de sair de novo”, era o que Maria Luiza lia na página dele. “Eu deixava de fazer outras coisas para descobrir o que ele tinha respondido”, destaca. “Às vezes ficava irritada, mas não falava pra ele, guardava tudo pra mim, o que me fazia mal”. “O namoro acabou e eu excluí o meu Orkut”, conta a estudante.


A opinião da especialista...

De acordo com a psicóloga Izabela Meireles, é muito difícil evitar esse tipo de situação, já que o Orkut é aberto. “Qualquer pessoa pode ver tudo, isso reforça o comportamento de ciúme”, explica. Segundo ela, por mais ingênuo que o recado seja, a pessoa não aceita. “Ela já interpreta, acha que aquilo tem outra intenção, outro significado. É muito prejudicial”, reforça.

Izabela diz que o ciúme é conseqüência de insegurança e carência. “A pessoa se torna mais carente“. Segundo a psicóloga, o ciúme em excesso vai ser sempre prejudicial, mas às vezes é natural.

Lidar com o Orkut de maneira saudável, sem ter prejuízos no relacionamento depende de cada pessoa. “Vai da estratégia que ela usa, é necessário conhecer a pessoa com quem ela convive”. Uma dica é apagar os recados o mais rápido possível para impedir que o outro veja, com isso brigas e constrangimentos podem ser evitados.

Izabela diz, ainda, que “convencer a pessoa que é imaturidade, coisa da cabeça dela” pode evitar o ciúme excessivo. Confiança e diálogo também colaboram. Há ainda a opção de excluir a conta, como muitos fazem.

Ela ressalta que para amenizar o ciúme no Orkut a pessoa tem que ser mais segura. “Se valorizar, alimentar a auto-estima, acreditar no relacionamento, confiar na outra pessoa”, são ações que podem controlar esse comportamento.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A busca pelo corpo perfeito




Ser magra... Este é o desejo da maioria das mulheres. Almejar um corpo esbelto, bonito e com formas definidas é comum hoje em dia. Os problemas começam quando os métodos para conseguir emagrecer causam mal a saúde física e mental. Forçar o vômito, tomar laxantes ou, até mesmo, rejeitar comida são atitudes comuns de pessoas que sofrem de transtornos alimentares.


Brenda Lemos, 15 anos, fazia natação e achava que todas as meninas tinham o corpo perfeito, menos ela. “Até meu pai falava que eu tinha que ficar igual a elas”, lembra. “Eu achava que se eu ficasse mais magra eu iria melhorar meus tempos. Depois que parei de nadar eu me achava barriguda e queria emagrecer cada vez mais. Teve uma época que eu nem sentava porque achava que ia engordar”, recorda a estudante.


A desenhista Juliane Luz, de 28 anos, conta que gostava do peso que tinha, mas por causa da ansiedade começou a sentir mais vontade de comer e engordou um ou dois quilos. Por coincidência, certo dia ela passou mal e vomitou o que tinha comido. Meses depois Juliane teve um “ataque de gula” e acabou forçando o vômito. “Nessa ocasião me senti super mal, culpada, ridícula e envergonhada. Mas semanas depois aconteceu novamente e assim foram sete anos da minha vida”, comenta Juliane.


“Eu era um pouco gordinha e queria que as meninas falassem comigo. Queria ter uma vida social ativa. Achei que emagrecendo resolveria alguma coisa”, relembra Ruth Magalhães, 18 anos. Ela conta que houve um tempo em que ela não comia de maneira alguma. “Eu não comia nada, não conseguia. Parecia que a garganta fechava”.


A anorexia, a bulimia e a compulsão são os três tipos mais comuns desses transtornos. A psicóloga Maria Aparecida Pontieri (foto) explica que na anorexia é como se a pessoa desenvolvesse uma fobia para comer. Ela tem medo de comer e engordar, por isso se recusa a ingerir comida. Já o bulímico, que muitas vezes está cima do peso, come, mas se sente culpado, fica com medo de engordar e procura maneiras para se livrar do alimento, como vomitar, tomar laxantes ou malhar demais. O compulsivo é um pouco diferente. Depois de sofrer alguma emoção negativa, como frustração ou angústia, ele come muito. Pode comer, de uma só vez, o suficiente para três pessoas. Ele só para quando não suporta mais. Depois disso, se arrepende e passa até três dias em jejum ou desenvolve a bulimia para eliminar o que ingeriu em excesso.


Brenda e Ruth sofreram de anorexia, e Juliane era bulímica. Todas elas se trataram e hoje estão curadas. Apesar disso, elas lembram muito bem de todo o mal que essa vontade excessiva de ser magra trouxe para elas. Brenda explica que o cabelo começou a cair e que teve depressão: “na época eu queria morrer porque todo dia tinha briga na minha casa por causa de mim. Eu não tinha amigos e quase não saia de casa”. Juliane fala que ela mesma tinha preconceito quanto à doença. “Achava que no fundo, se eu quisesse, podia me controlar, não me controlava porque eu não queria de verdade. Me via como uma pessoa horrível, egoísta, vaidosa, superficial, mentirosa, em suma: um ser humano desprezível”, comenta. E mais: “a doença era literalmente mais forte que eu. Larguei o namorado, o estágio, o curso de desenho industrial, o inglês e me isolei em casa”. Ruth conta que chegou a passar três meses só tomando vitamina e sopa liquidificada. “Não conseguia ingerir nada sólido”, lembra.


Infelizmente, nem todos têm um final vitorioso como o dessas garotas. Maria Carla Souza faleceu no final de junho pesando 28 quilos. A prima dela, Ana Flávia Lima, 28, contou que Maria Carla sempre se achou gorda. “Ela pensava que precisava ser magra par ser feliz”. Flávia explicou que Maria Carla desenvolveu primeiro a bulimia, aos 15 anos, e que depois passou a rejeitar qualquer quantidade de comida. “Desde que descobrimos a doença, ajudamos em tudo que foi preciso. Ela chegou a fazer várias internações”, comenta. Como parte do tratamento, Maria Carla fez acompanhamento psicológico, psiquiátrico, cardíaco, renal e com um nutricionista para tentar se livrar de todo mal causado pelo transtorno. “Ela teve derrame e parada cardíaca”, lembra a prima.


Brenda conta que só ficou sabendo que podia ter uma parada cardíaca quando foi à psiquiatra. “Eu comecei a chorar porque não tinha idéia dessas conseqüências”, recorda. Juliane teve bulimia dos 17 aos 24 e procurou ajuda desde o primeiro ano. “Como não surtia efeito e muitas vezes eu até piorava, desistia com freqüência dos tratamentos. Quando realmente encontrei um profissional bom eu me tratei e me curei em um ano”, explica a desenhista. Ruth, que desenvolveu a anorexia desde os 11, começou a se tratar com 15 e logo depois de um ano recebeu alta do psiquiatra.


A Dra Maria Aparecia explica que o tratamento deve ser feito com psicólogos, psiquiatras, nutricionistas e endócrinos. Mas além do auxilio médico, a família também pode ajudar (ou atrapalhar). “Às vezes a mãe exige que a filha seja magra. Há mães muito obsessivas com peso”. A psicóloga considera que os pais devem ficar atentos ao comportamento dos filhos em relação à alimentação. Caso percebam que ele evita comer na frente de outras pessoas ou levanta da mesa e vai ao banheiro (possivelmente vomitar), é aconselhável procurar um psicólogo.


Brenda conta que a primeira pessoa em que ela buscou ajuda foi na mãe. Foi ela quem a levou para se tratar. “Ela me apoiou nessa fase”, recorda. Ruth lembra que os pais e os amigos a ajudavam no tratamento. “Me levavam a nutricionistas e psiquiatras. Minha família e meus amigos me deram muito apoio, que em uma situação como essa é essencial”, explica. Juliane também contou para a mãe, um ano depois que sofria do transtorno. Ela considera que eles não tinham modos para lidar com a situação, “nenhuma família é treinada para passar por isso”.




Segundo a psicóloga, é muito fácil uma pessoa desenvolver um desses transtornos. “A pessoa pode ter a genética favorável para o aparecimento dessas doenças”, analisa. Quanto às causas desses males, ela esclarece que uma criança gordinha pode desenvolver anorexia na adolescência, “porque tudo é proibido”, comenta. Além disso, ela considera que a internet ensina a ser anorexo e bulímico, já que nessa mídia as pessoas trocam informações sobre os transtornos. Para piorar a situação, Dra Cida, explica que “existe uma cultura no Brasil que preza pela beleza e pela magreza. A mulher acaba sendo refém da beleza”. Porém, esse padrão de formosura cobrado pela cultura e pela mídia não existe. As modelos e atrizes são maquiadas, tratadas no photoshop e assim em diante...


Juliane concorda que a mídia tenta definir o que é ser magro, gordo ou saudável. “Assim como a magreza e a gordura, a beleza é um conceito bastante manipulado pela cultura vigente”, considera. Para ela o que define a beleza é o equilíbrio, a harmonia entre o rosto e o corpo e, principalmente, o aspecto pessoal: “simpatia, auto-estima, inteligência, sucesso, charme, ousadia, bom-humor, autoconfiança, carisma, coragem, originalidade e autenticidade”. “Antes eu buscava perfeição do corpo, hoje eu busco perfeição da alma”, conclui.




A psicóloga ressalta que os transtornos alimentares são comuns hoje em dia e que a família não pode ter vergonha ou tentar esconder. É preciso buscar tratamento: “medicamentos, terapia, acompanhamento medico, psicológico, psiquiátrico ou endócrino”. Segundo ela, é necessário ter horários e quantidades certas para se alimentar.